Programa de Incentivo aos Estudantes de Língua Japonesa para Universitários

Na semana passada, tive a oportunidade de participar do Programa de Incentivo aos Estudantes de Língua Japonesa para Universitários oferecido pela Fundação Japão de São Paulo.
Não é difícil imaginar que eu adorei, né. Mas confesso que foi bem diferente do que esperava (o que não é uma coisa ruim). Na verdade, nenhum de nós, que participamos do programa, sabia bem como seria e, portanto, ficamos surpresos quando descobrimos.
Éramos seis (como na clássica novela homônima) na turma A: Beatriz, Luciana, Solange, Thais, Tiemi e eu. A distribuição entre os sexos ficou desequilibrada, mas foi algo… inesperado, do destino, um presente de Deus (como lhes falei uma vez) ou sei lá. Ano passado, a situação foi contrária – cinco meninos e uma menina (vendo por esse lado, até que não foi tão ruim eu não ter participado da edição anterior).
Ficamos todos num mesmo hotel. Beatriz, Solange e Thais num quarto, Luciana e Tiemi noutro e eu num outro.

Cheguei lá no hotel altas horas no domingo (em verdade, quase não era mais domingo) e acabei não as conhecendo neste dia.
Devo dizer que é um tanto estranha para mim a sensação de me hospedar num hotel. É apenas a segunda vez que o faço (a primeira foi em 2010), por isso deve ser meio natural tal sensação. Bateu um estranho sentimento de liberdade e de autonomia, mesmo sabendo que não era bem assim. Parecia um outro mundo. Apartado. Eu num mundo estranho. Provavelmente, era simplesmente falta de costume.
Fiz um reconhecimento em tudo que pude, até li um pequeno manual sobre as facilidades do local e o comportamento esperado dos hóspedes. Detive-me um tempo na TV a cabo. Comecei a passar de canal em canal procurando algo que parecesse interessante. Nada. Muda de canal. Nada. Muda de canal. Nada. Até que lá pelos cento e poucos, pensei: ah, vou colocar na NHK para já entrar no clima! Procurei até encontrá-la no canal 147, porém… não estava pegando! Caramba. Que desapontamento. Bom, esqueçamos a TV. Vamos pro banho – pensei. Depois de mourejar com o sistema de aquecimento a gás, consegui tomar um grande banho (embora o espaço fosse minúsculo). Então, arrumei mais algumas coisinhas e caí na cama.

Na manhã seguinte, cada um dos três quartos se organizou independentemente para ir à Fundação. Conhecemo-nos lá. A Luciana e a Tiemi já tinham chegado quando cheguei e um tempinho depois chegaram Beatriz, Solange e Thais, que haviam errado o caminho para a fundação. E este foi o primeiro assunto do grupo.
Na primeira aula, rolou uma apresentação de todos: professores, nós alunos e até do diretor-geral da Fundação Japão em São Paulo, o sr. Akira Fukano. Tudo em japonês. E ficaria um bom tempo sem ouvir uma palavra sequer em português. Naquele momento, percebemos que ia ser exigente a parada. E ainda não tínhamos visto nada.
Na hora do almoço, fomos todos juntos ao shopping e lá cada um buscou sua refeição. Nesta ocasião, descobriram minha velocidade “lesmoide” para comer. Mas também descobriria que a Solange come quase tão lentamente quanto eu (ganhei dela em uma ocasião).
De volta aos estudos, tivemos uma aula com um professor japonês que não falava nada de português! No começo, demorei um pouco para entrar no ritmo dele, mas depois ele se tornou um dos meus professores preferidos. Muito paciente.
Para terminar o dia, tivemos uma experiência cultural: vestir yukata. Na hora de tirarmos fotos com os trajes, foi uma enxurrada de risos com os comentários das professoras. Até inventaram um nome pro grupo: Tiago e as Tiaguetes. Foi absurdamente cômica esta “aula”.
No caminho de volta pro hotel, sugeri que jantássemos todos juntos (exceto a Luciana, que tinha saído com sua tia). E assim foi feito. Foi uma boa oportunidade para socializarmos.
A lição de casa do primeiro dia nos esperava. Tratava-se de ler um ou mais textos (correlatos) e explicá-los para todas as outras pessoas, além de apontar fatos curiosos ou comentários pessoais. Tudo em japonês, claro. Mais tarde, saberíamos o temível motivo para tal lição de casa.
Uma boa notícia é que a NHK pegou hoje. Não sei se é impressão minha, mas parece que boa parte da programação é constituída de sumô. Durante a semana inteira, assisti um pouco sobre esta modalidade sobre a qual nada entendo. Até que tinha uns lances bem… interessantes.
Eu que achei que iria conseguir dormir mais do que na noite anterior, enganei-me…

Na manhã de terça-feira, tomamos café da manhã mais ou menos juntos (cada quarto descia num horário, mas nossos horários eram similares), prática que se seguiria até o último dia de curso. E fomos juntos para a fundação (o que também se seguiria nos dias seguintes).
Logo na primeira aula, tomei uma lavada da compreensão auditiva. Não consegui entender o suficiente dos diálogos e, por conseguinte, errei muitas das perguntas. Porém, foi bom isso. Percebi onde estão algumas de minhas deficiências. Para eficientemente combatermos um inimigo, precisamos conhecê-lo bem, certo? E esta aula serviu como uma incursão ao território inimigo, onde [creio que] consegui coletar informações importantes sobre suas atividades.
Seguiram-se mais aulas sobre a cultura japonesa, inclusive aquela da lição de casa. Não foi exatamente fácil explicar os textos, até porque o esperto aqui não fez nenhum tipo de anotação, nem sublinhou partes importantes dos textos (como minhas colegas fizeram). O tema era banheiro (e foi logo em seguida do almoço). Então, aprendi coisas interessantes sobre isso. Por exemplo: você sabia que, no Japão, o banho é tomado num cômodo e as necessidades fisiológicas, feitas noutro cômodo? E que, excluindo questões básicas como preço e localização, esta separação é a principal preocupação dos japoneses (segundo uma pesquisa de 2011) quando vão alugar uma casa? Eu não sabia. E aprendi mais também sobre a diferença de hábitos entre as famílias brasileiras.
Todas estas aulas sobre a cultura japonesa tinham um outro propósito, além da pura e simples transmissão de conhecimento. Esse outro propósito era que escolhêssemos um tema sobre o qual deveríamos elaborar questões para uma entrevista com japoneses! Fortes emoções, não? Claro que todos ficamos preocupadíssimos. Não sabíamos nem fazer direito uma entrevista em português…
Porém, esta preocupação não impediu a Solange, a Thais e eu de irmos passear um pouco na Liberdade (a Beatriz ficara no hotel escrevendo sua tese sobre kanji, a Luciana saíra novamente com sua tia e a Tiemi não quis ir porque tinha estado lá dias antes). Conheci algumas lojas novas (pra mim), compramos algumas coisas (exceto a Solange, que comprou muitas coisas!) e rodamos por lá em busca de um restaurante agradável (ao paladar e ao bolso, principalmente) para jantarmos. Encontramos um bom lugar, chama-se Ebis. Foi um jantar muitíssimo agradável, devo dizer.
Voltando ao dormitório, trabalhamos nas questões da temida entrevista. Meu tema foi casamento. Por que este tema? Porque foi o que sobrou. E escrevi isso na apresentação (ops, isto é cena dos próximos capítulos).

Chegamos na quarta-feira com duas aulas seguidas sobre kanji! Embora somente eu tenha exultado com isso. Minhas colegas não apreciam muito estes milhares de ideogramas mágicos e incríveis. A Thais nos disse que começara o estudo do idioma japonês devido ao kanji, mas que depois tinha perdido este amor pelos ideogramas chineses (puxa, que pena!). Apesar de ninguém ali (além de mim) morrer de amor por kanji, reconheceram sua importância como facilitador na leitura, já que um texto escrito somente com hiragana e katakana é um suplício de ler (sem falar que ocupa um espaço incrível).
Depois, seguiu-se uma simulação da entrevista, que foi muito útil. Em seguida, o almoço. E então… passamos por maus bocados nos minutos finais da espera pelos japoneses. O nível de tensão na sala era absurdo. No nível de soltar sorrisinhos de desespero.
Quando eles finalmente entraram e as entrevistas começaram (cada um de nós entrevistava um ou dois japoneses), senti um alívio indescritível. Pra ser muito sincero, até me diverti bastante no processo (o que, descobri depois, incomodou uma amiga que não conseguiu relaxar mesmo durante as entrevistas). Nós fazíamos um esquema de rodízio para conversarmos com todos os japoneses. Eu e os japoneses que entrevistei demos muitas risadas. Foi muito legal! O problema foi que acabei não conseguindo anotar muito bem as respostas deles (uma questão que já prevíamos), pois não queria (e não deveria mesmo) deixar de dar atenção a eles e o tempo, que antes parecia ser enorme (quinze minutos), era pouco, de fato. Não consegui fazer todas as perguntas para nenhum deles…
Logo após as entrevistas, tivemos um cafézinho para conversarmos com os japoneses sem a pressão da entrevista e sem grilhões quanto a assunto. Agora, mais relaxados, conseguimos aproveitar melhor a conversa. Eu falei mais com dois jornalistas que vieram trabalhar no jornal São Paulo Shimbun. Ambos muito gentis. Aliás, todos os japoneses que vieram para as entrevistas são muito gentis e pacientes. Até nos deixaram comentários sobre nossas posturas. Foi um grande aprendizado.
Na hora da janta, andamos acho que mais de uma hora só procurando um lugar para comermos. Foi aí que percebi que existem pessoas mais indecisas e que gostam menos de fazer escolhas do que eu. Por fim, comemos num restaurante que se dizia de comida chinesa mas que tinha muito pouco de chinês. A vida é feita de altos e baixos né. Mas nessa janta, descobri que a Tiemi tem um amigo em Bauru que, segundo ela (e uma amiga sua que me viu noutro dia), é incrivelmente parecido comigo. Não só na aparência, mas no jeito de rir, de falar japonês… É verdade que não é novidade eu ser até confundido com outras pessoas (como um camaleão humano), mas essa semelhança me assustou um pouco. Como pode?
Além disso, minhas caríssimas colegas queriam me exterminar por que ficava usando やばい (uma expressão vista no primeiro dia do curso) toda hora e em várias situações. A questão é que tal expressão realmente tem muitos significados entre os listados no dicionário e gírias.

No dia seguinte, a primeira aula foi novamente de compreensão auditiva. Mas, desta vez, consegui compreender bastante, apesar de boa parte da aula ter sido devotada aos números japoneses – assunto que estou longe de dominar. Provavelmente, devido ao sistema de contagem japonês agrupar os números de quatro em quatro, enquanto nosso sistema os agrupa de três em três. Por exemplo, nosso “100.000” (cem mil) fica, em japonês, “10,0000” (十万, juu man, ou dez vezes dez mil), embora não creio que eles escrevam explicitamente com quatro casas de separação (é mais uma coisa a se pesquisar). Acho que escreveriam “100,000” mesmo, mas o jeito de pensar é usando a separação de quatro dígitos (no caso, múltiplos de dez mil em vez de múltiplos de mil, como fazemos).
Depois, tivemos aulas sobre apresentação de trabalhos. Sim, não bastava a emoção de entrevistarmos japoneses, teríamos que apresentar o resultado das entrevistas e nossas conclusões para pessoas que nunca tínhamos visto na vida (inclusive, mais japoneses, claro).
Devo dizer que foi uma tarefa meio hercúlea extrair informações das minhas parcas e porcas anotações do dia anterior. O plano foi aproveitar as respostas e comentários que ainda estavam razoavelmente frescos na memória e mandar ver no texto da apresentação.
Nesse dia, jantamos rapidinho para podermos terminar o texto. Foi a noite em que dormi menos – cerca de três horas de sono. Foi bastante difícil criar em japonês, pois não é uma coisa com que tenha muita experiência.

No último dia de curso, as tensões de todos se afloraram. Tivemos até à hora do almoço para terminarmos nosso discurso e ensaiá-lo. Um professor japonês e uma professora brasileira leram o meu texto e sugeriram correções. Com o texto pronto e revisto, minha maior preocupação era decorar o máximo possível para não ter que ficar lendo muito na hora da apresentação. Fizemos um ensaio geral, pois também seríamos os apresentadores dos nossos colegas. Meu ensaio foi horrível, ficou claro para mim.
Bateram quinze e trinta no relógio. Hora do “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”. Bastava olhar para a expressão facial de qualquer um de nós para ver a tempestade que nos chacoalhava por dentro. É a hora do やるしかない!(algo do tipo “não tem jeito, vamos ter que fazer isso”).
A professora Maki tinha mais confiança na gente do que nós mesmos. Começou pela Beatriz (que discursou sobre os japoneses começarem a trabalhar logo em seguida da formatura na faculdade), depois fui eu, que discursei sobre minhas percepções acerca das respostas dos entrevistados e sobre o que aprendi com relação ao casamento no Japão. Claro que eu cometi alguns errinhos. Inclusive, num deles, uma moça deu uma risada. Bom, pelo menos ela estava prestando atenção. Depois da minha apresentação, respondi às perguntas da plateia com meu japonês zambeta. As perguntas foram interessantes e eu não tinha respostas prontas para elas, mas acho que consegui transmitir o que penso e o que sinto. Depois de mim, foi a vez da Luciana (que discursou sobre os japoneses tomarem banho com pessoas desconhecidas nos banhos públicos e em termas), depois foi a Solange (que discursou sobre as datas em que os japoneses costumam dar presentes e sobre os presentes), em seguida a Tiemi (que discursou sobre a educação no Japão e os estudantes de lá) e, por fim, a Thais (que discursou sobre o hábito de as mulheres cuidarem das finanças da casa e darem uma mesada para os maridos).
Bom, ninguém ficou pra sempre no modo pânico, nem teve um piripaque na hora e nem desmaiou. Logo, considero o evento um sucesso.
Tinha até um japonês que me conhecera dois dias antes, na entrevista. Ele foi nos prestigiar naquele delicado momento de nossas existências. Obrigado, Kawaguchi-san!
Para quem quiser ver, meu discurso está aqui.
Após as apresentações, houve uma confraternização com todo mundo. Com certeza, a palavra que nos descrevia melhor era “alívio”. Depois de muito esforço de nossa parte, dos professores e de todos os envolvidos, chegamos vivos ao fim.
Foi uma experiência bastante enriquecedora tudo o que vivi nesta semana. Agora que passou, vejo como foram fantásticas experiências as entrevistas com os japoneses e a apresentação para o público. Não é algo que se pode fazer todos os dias. E levo comigo muitas boas lembranças e muito aprendizado. Um deles é que descobri que consigo conversar com um japonês somente usando japonês. É óbvio que não sei muitas palavras e estou bem longe da fluência, mas é possível uma comunicação efetiva e prática, o que já é uma grande coisa.
Fico muitíssimo grato à Fundação Japão pela oportunidade ímpar e espero que muitos outros estudantes do idioma japonês tenham a felicidade de participar deste programa.
Com isso, encerro este artigo usando uma expressão que aprendi no curso. 以上です。

Turminha do barulho

Turminha do barulho

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2 Responses to “Programa de Incentivo aos Estudantes de Língua Japonesa para Universitários”

  1. Alexandre Says:

    “Tiago e as Tiaguetes” haha E olha que nem te conheciam, creio eu. Muito legal mesmo o post, bem-detalhado e interessante. Puxa, meu caro, que maratona nipônica essa! Deve ter sido mesmo muito enriquecedor! Seu português está excelente também, hein? Abraço!

    • slackhideo Says:

      Não nos conhecíamos mesmo. Foi uma experiência incrível a “maratona nipônica”.

      Meu português não é tão bom quanto o seu, mas obrigado!

      Grande abraço.

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